Manuela Vilaseca faz parte da elite mundial do trail run. Há alguns dias a brasileira sagrou-se campeã dos 70K da Ultra Fiord, no Chile, uma das provas mais difíceis da modalidade. Há até pouco, Manu, filha de pai espanhol, morava no Rio de Janeiro e encarava os treinos com alegria e disposição. Até que um dia uma luz vermelha acendeu: uma cena de violência extrema no Rio e uma viagem à Espanha a fizeram optar por uma nova vida. Há alguns meses Manuela Vilaseca mora na Espanha, num povoado chamado Moiá, com cerca de 5.500 habitantes. Como ocorreu toda essa mudança? A própria Manu conta: 

“Mudei de cidade, de país, de trabalho, de tudo. É como se eu tivesse dado um “boot” na minha vida, ou como se tivesse nascido de novo. Comecei uma vida nova.

Lembro do dia em que estava no trabalho e por volta das 18:30 meu amigo Zimbrão me mandou uma mensagem de whatsapp. Era uma foto, e quando abri me deparei com a imagem de uma pessoa estirada no chão, toda ensanguentada. Abaixo da foto ele escreveu, “ aconteceu agora, na Lagoa.” Aquela imagem foi tão chocante para mim e na mesma hora liguei para ele querendo saber quem era e o que tinha acontecido. Um médico, chamado Jaime, passava de bicicleta pela lagoa quando um pivete, escondido atrás de uma árvore, o apunhalou para roubar sua bicicleta. Jaime ficou estirado no chão e suas vísceras já estavam para fora. Apesar de algumas pessoas terem prestado socorro, ele não resistiu. 

No dia seguinte acordei cedo e tinha que sair para correr. Eu estava deprimida e não tinha energia nem vontade, mas me obriguei a ir porque estava na semana de uma prova e tinha que sair para trotar. Eu morava no Jardim Botânico e sempre corria na Lagoa. Quando passei pelo local do incidente, o chão ainda estava repleto de sangue e papel higiênico. Era como se o crime tivesse acabado de acontecer. Estava tudo muito fresco.
Eu lembro que esse incidente foi o que acendeu a última luz vermelha para mim. Sentia um misto de raiva, tristeza, algo muito estranho. Me perguntava se eu seria a próxima. Meu pai me ligou logo que cheguei em casa, perguntando se eu tinha visto o que tinha acontecido. Infelizmente sim. Ele argumentou que não queria mais que eu saísse de bicicleta, e eu retruquei:
-Nem de bicicleta, nem a pé, nem de carro, e nem sair de casa, não é?
Eu me sentia insegura em qualquer situação. Tudo que eu mais gostava de fazer eu teria que deixar de fazer, ou fazer com muito medo? Pensei para mim mesma, “Eu não preciso viver assim.”
manuela
Eu estava prestes a fazer uma viagem de três meses para a Espanha, onde ficaria com a minha família. Meu pai é espanhol, então tenho passaporte e com isso o direito de ir e vir o quanto eu quiser e por quanto tempo quiser. Além da violência, a economia no ano passado já não ia nada bem. Era muito fácil prever que entraríamos em uma crise muito séria, pois mês a mês os números nos mostravam isso. 
Quando cheguei na Espanha o que eu mais tive foi tranquilidade. Quando eu saía para correr e fazer um treino longo, já não precisava me preocupar com o “dinheiro do ladrão.” Levava na mochila água, comida e abrigo. O máximo que eu podia encontrar era algum animal, ou pessoas caminhando na montanha. Percebi que podia viver uma vida mais simples, porém melhor e mais feliz. 
Passado esses três meses, quando botei o pé no Rio outra vez, a primeira coisa que fiz foi sentar diante do meu pai e dizer:
-A minha vida no Rio já não faz mais sentido. Eu não moro mais aqui.
A partir desse dia, fiz uma lista de tudo que precisava fazer para concretizar essa mudança, e a primeira delas foi definir uma data. Comprei uma passagem de ida para o dia 30 de dezembro, ou seja, eu tinha três meses. Eu queria começar o ano de 2016 na minha vida nova. Fechei a minha loja. Doei quase tudo eu eu tinha. Botei os essenciais em duas malas. Tudo que eu tinha estava dentro daquelas duas malas (e posso afirmar que esse processo de desapego foi um dos maiores aprendizados na minha vida). 
Quando eu conto isso as pessoas arregalam os olhos, porque realmente é uma coisa muito radical. É mesmo, mas ao mesmo tempo a vida é muito curta. Eu não pensei, apenas agi. Segui meu coração e minha intuição ao fazer o que, para mim, era o que eu precisava fazer. Vim sem emprego, mas logo que cheguei comecei a correr atrás e já estou trabalhando. Não pego mais trânsito e para chegar no trabalho passo apenas um sinal de trânsito. Mudei meus patrocínios. O tão sonhado calendário internacional ficou muito mais viável. Hoje estou morando num povoado de 5,500 habitantes chamado Moià. Nunca mais corri em cima do asfalto e quando saio de casa vejo vacas e estradas terra. Aprendi a cozinhar, coisa que nunca fiz porque nunca tive tempo nem paciência. Tenho uma vida muito mais simples, porém muito melhor.
Isso é fácil? Nem um pouco, principalmente porque uma mudança tão grande requer muita humildade para saber começar tudo do zero. Voltar a ganhar muito pouco no trabalho, fazer todo o ciclo de amizades, aprender um novo idioma, aprender novos costumes. Tudo é novidade, mas apesar de isso ser um pouco assustador também é algo que me fascina. Existe todo um mundo novo para eu conhecer, uma longa estrada a percorrer, tanta coisa para aprender! Sinto energia nova e fresca em torno de mim. Aos 36 anos de idade eu nasci de novo.”
Para acompanhar a carreira de Manuela Vilaseca acesse:
instagram | @manuvilaseca
twitter | @manuvilaseca
www.manuvilaseca.com
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